Método normaliza índice glicêmico em 70% dos diabéticos

Sistema desenvolvido no Hospital do Rim e da Hipertensão, de São Paulo, foca pacientes que têm a doença descontrolada

Descontrole glicêmico e oscilação das taxas de açúcar no sangue podem causar complicações crônicas, como derrame

São Paulo – 27/02/2009  -Um novo método desenvolvido no Hospital do Rim e da Hipertensão indice glicemicode São Paulo, ligado à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), tem conseguido normalizar as taxas de glicemia de 70% dos diabéticos com descontrole glicêmico. A partir de março, o método -chamado de glicemia média semanal- também passa a ser adotado pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

O sistema é simples: por meio de um medidor digital de glicemia, a pessoa dosa os níveis de açúcar no sangue sete vezes ao dia (antes e após as três principais refeições e na madrugada), durante três dias.
Os dados, que ficam armazenados no aparelho, são transferidos para um computador, e um software calcula a glicemia média semanal do paciente. A partir da interpretação dos gráficos, o médico faz o ajuste no tratamento -pode aumentar a dose de remédio ou mudar a dieta, por exemplo.

Atualmente, estima-se que apenas 10% dos diabéticos tipo 1 e 25% dos diabéticos tipo 2 tenham a doença controlada. O descontrole glicêmico pode causar complicações crônicas (como doença arterial, derrame cerebral, cegueira e amputação de pés e pernas) e agudas (coma e infecções). A variabilidade da glicemia (quando os níveis oscilam muito) também é um fator de risco para as complicações crônicas.

Segundo o médico Augusto Pimazoni Netto, coordenador do grupo de educação e controle do diabetes do Hospital do Rim e da Hipertensão, o novo método conseguiu normalizar índices glicêmicos que havia anos estavam descontrolados.

“Os métodos atuais têm muitas limitações. A glicemia de ponta de dedo informa o nível de glicemia no momento exato do teste e a hemoglobina glicada (A1C) reflete os níveis médios de glicemia dos últimos dois a quatro meses [os médicos usam esses dois exames para fazer o controle glicêmico]. Mas eles não indicam as oscilações da glicemia.” ·Outra limitação da A1C, por exemplo, é a existência de diversos métodos laboratoriais que dão diferentes taxas de normalidade para o exame. Além disso, o teste pode ter seu resultado alterado pela redução do número de hemácias ou dos níveis de hemoglobina.

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No ano passado, as maiores entidades representativas de diabetes no mundo lançaram uma campanha para que os médicos passem a utilizar a glicemia média para fazer o controle glicêmico de seus pacientes. É dentro desse conceito que se enquadra o novo método de glicemia média semanal.

Um estudo conduzido por Pimazoni Neto para testar a eficácia do sistema mostra que em um grupo de 95 diabéticos com descontrole glicêmico, 70% deles normalizaram os níveis de glicemia em três semanas. O trabalho foi apresentado em congressos médicos e aguarda publicação em uma revista científica internacional.

“Temos vários casos de pacientes que chegaram com uma glicemia média semanal de 400 mg/dl (o recomendado é estar abaixo de 150 mg/dl) e que, depois dos ajustes no tratamento, os níveis se normalizaram em menos de um mês.”. É o caso de Célia Motter, 54, que foi encaminhada ao grupo de educação em diabetes com nível glicêmico semanal de 570 mg/dl. “Eu não sentia absolutamente nada. Achava que só controlaria o diabetes cortando os doces. Comia muito pão, muita massa”.

A partir da glicemia média semanal, os médicos aumentaram a dose de insulina e ela recebeu orientação nutricional. “Antes comia dois pães franceses no café da manhã. Agora, como meio”. Sua glicemia média semanal está em 110 mg/dl.

A nutricionista Amanda Lobo conta que, muitas vezes, a simples mudança nutricional já reflete na melhora dos níveis glicêmicos. “Pelos gráficos [da glicemia média semanal], a gente sabe como está alimentação. Se os níveis sobem muito depois de determinada refeição, procuramos saber qual alimento foi consumido e orientamos como é possível mudar isso.”

O barbeiro Geraldo Santos Ramos, 54, é outro exemplo bem-sucedido de controle do diabetes após uma mudança de estilo de vida. Ele chegou ao grupo com uma glicemia semanal de 270 mg/dl, após 14 anos convivendo com o diabetes tipo 2. “Ficava muito tempo sem comer e depois colocava dois andares de comida no prato.” Hoje, além de fazer pequenas refeições a cada três horas, ele incorporou na sua rotina caminhadas diárias de 6 km.

O endocrinologista Roberto Betti, do InCor (Instituto do Coração) e do hospital Oswaldo Cruz, avalia que o novo método seja extremamente útil para os pacientes diabéticos internados, que desenvolvem hiperglicemia hospitalar. “Eles têm mais predisposição às infecções, a recuperação é mais lenta e o tempo de internação é maior. Com esse novo método, vamos conseguir tratar muito melhor nossos pacientes”, explica o médico.

Fonte: Folha de São Paulo 27/02/2009