Lúpus e diabetes

Existe algo em comum?

O diabetes tipo1 (DM1) e o lúpus  estão entre as 80 doenças relacionadas com a autoimunidade. Mas qual a relação entre elas?

O que elas têm em comum é presença de auto anticorpos circulantes que se ligam a diferentes estruturas do nosso corpo.

Segundo Dra. Denise Reis Franco, endocrinologista e diretora da ADJ Diabetes Brasil, no diabetes tipo 1 encontramos os anticorpos contra a parte das nossas células beta que produzem insulina.Lúpus e diabetes

Outras doenças autoimunes podem ocorrer em quem tem DM1, por exemplo, doenças da tiróide que ocorre em 30% das pessoas e a doença celíaca que ocorre em 5%.

O lúpus não é tão freqüente como as doenças da tiróide, mas pode ocorrer em quem tem diabetes tipo 1.

“Quando ocorre essa associação entre diabetes 1 e lúpus  temos que ter um cuidado maior no controle da glicemia. No diagnostico do lúpus o organismo para reagir a situação de stress requer mais insulina para controlar os níveis da glicose no sangue. Portanto, quem não produz insulina irá necessita de ajuste nas doses de insulina,” completa Dra. Denise.

Outro aspecto importante é o tratamento do lúpus. Uma das medicações muito usadas para tratar o lúpus é o corticóide e ele pode aumentar a chance do aparecimento do diabetes induzindo por medicação. Então dá para imaginar que quem tem diabetes tipo 1 e lúpus e está tratando com corticóides, terá um controle difícil da glicemia. “ Diante disso para garantir um melhor tratamento, é o necessário ter um contato bem próximo entre o endocrinologista, reumatologista e quem tem essa associação,” ressalta Dra. Denise

Para entender melhor o assunto, a Revista Jeito de Viver procurou a Dra. Lúcia Campos, médica assistente da Unidade de Reumatologia Pediátrica do Instituto do Hospital das Clínicas, que irá falar um pouco mais sobre o lúpus.

O lúpus é uma doença auto-imune, caracterizada por um processo inflamatório crônico que pode afetar múltiplos órgãos. Trata-se de uma desregulação do sistema imunológico onde o organismo passa a produzir auto-anticorpos, ou seja, anticorpos que agridem o próprio indivíduo. Esses anticorpos se depositam nos tecidos do corpo e geram um processo inflamatório local, que com o tempo podem prejudicar seu funcionamento.

Tipos

Segundo Dra. Lúcia, o lúpus pode ser cutâneo, quando afeta apenas a pele, ou sistêmico, conhecido como lúpus eritematoso sistêmico (LES), onde existe a possibilidade de vários órgãos serem simultaneamente, como a pele, as articulações, o sangue, os rins, o coração, o pulmão, sistema nervoso, entre outros. Potencialmente, esta forma da doença pode afetar qualquer parte do corpo.

“ Em 20%  dos casos o LES se inicia na infância e adolescência e é então denominado de LES juvenil. A principal diferença entre a doença do adulto e a juvenil diz respeito ao comprometimento renal, que é mais freqüente e de maior gravidade na forma juvenil,” explica a  reumatologista.

Sintomas

Dra. Lúcia relaciona as principais manifestações clínicas iniciais do LES: febre prolongada, falta de apetite, perda de peso, comprometimento articular ou artrite (dor, inchaço, calor e limitação das articulações, como joelhos, tornozelos, punhos, mãos e pés), da pele e dos gânglios aumentados.

As lesões cutâneas(pele e mucosa) no LES acometem até 70% dos pacientes e podem se apresenta de diversas formas, incluindo manchas vermelhas no rosto(conhecido como eritema malar em asa de borboleta) e mãos,úlceras nas mucosas da boca e do nariz, púrpuras, urticária , nódulos, bolhas, entre outros. O eritema costuma ser desencadeado ou exacerbado pela exposição solar(fotos sensibilidade). Sendo habitualmente localizado na face,  pescoço, braços e pernas.

“A exposição do paciente aos raios ultravioletas A e B (EVA e UVB) deve ser evitada, especialmente entre às 10 e às 16 horas. O uso de protetor, com fator de proteção solar(FPS) igual ou superior a 15, deve ser indicado em todos os pacientes e aplicados 30 minutos antes da exposição, mesmo em dias nublados, com reaplicação a cada 4 horas.

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Os pacientes também devem se protege das lâmpadas fosforescentes, que também emitem raios ultravioletas do tipo UVB. Na piscina ou praia deve ser usado boné, guarda-sol e FPS. Que deve ser reaplicado de hora em hora”diz a reumatologista.

Nos casos dos rins, as alterações no exame de urina são variadas podendo ocorrer sangramentos e/ou perda importante de leucócitos e proteínas. Os pacientes podem apresentar hipertensão arterial, inchaço e insuficiência renal.

Os envolvimentos do sistema nervoso r psiquiátrico se manifestam em forma de dor de cabeça de forte intensidade (como enxaqueca), convulsão, distúrbios dos comportamentos(alucinações, depressão,etc) e mais raramente derrame cerebral (AVC) e coma.

O comprometimento hematológico  (do sangue), no LES pode se manifestar com redução do número de  plaquetas, de leucócitos e linfócitos e  com anemia hemolítica (destruição das hemácias). As manifestações decorrentes destas alterações incluem sangramentos locais(como sangramento na pele, nariz, boca, etc) ou generalizados, maior risco de infecções e palidez e icterícia ( olhos amarelados). Por vezes também podem ser vistos casos de tromboses.

Diagnostico

De acordo com a Dra. Lúcia para o diagnostico da doença é necessária a presença de quaro ou mais dos 11 critérios desenvolvidos pelo Colégio Americano de Reumatologia (hochberg et AL, 1997), que incluem diversas alterações clinicas e laboratoriais.  Eles podem aparecer todos ao mesmo tempo ou demorar alguns meses para o diagnóstico definitivo da doença.

Tratamento      

O lúpus pode ser controlado, mas exige um tratamento prolongado e individualizado, sendo fundamental para o seu sucesso uma boa relação entre o médico, o paciente e seus familiares.

A base do tratamento são os corticosteróides (como prednisona e prednisolona) e os antimaláricos ( difosfato de cloroquina ou sulfato de hidroxicloroquina).

Apesar de fundamental no tratamento da doença, os corticosteróides estão potencialmente associados diversos efeitos colaterais (face em lua cheia, obesidade, estrias, aumento dos pelos, infecções, catarata, parada do crescimento, ulcera do estomago, hipertensão arterial e osteoporose) e sua dose deve ser, portanto, reduzida o mais breve possível, além se ser indicada a suplementação de cálcio e vitamina D no intuito de minimizar suas complicações.

Os anti-maláricos tem demonstrado voa resposta no controle da atividade da doença, melhorando a sobrevida desses pacientes. Reduzindo o risco de tromboses, controlando a fotossensibilidade, alem de funcionar como imunomodulador, auxiliar na redução do colesterol e das doses dos corticosteróides.

Outros medicamentos podem ser utilizados no controle dos pacientes com LES, como antiinflamatórios não hormonais, imunossupressores, entre outros.

O uso de um ou mais medicamentos implica em um seguimento cuidadoso e periódico com o reumatologista, com consultas e exames laboratoriais seriados, com o objetivo de avaliar a inflamação e detectar e tratar possíveis eventos adversos. A nutrição deve ser balanceada e os esortes e atividades de lazer são indicados.

Causa

A causa exata da LES ainda não está bem estabelecida. Existe uma predisposição genética, mas vários fatores desencadeantes podem estar envolvidos na ativação da doença, tais como infecções, estresse emocional, medicamentos, luz ultravioleta e sabidamente fatores hormonais (estrógeno), o que explica a maior freqüência da doença no sexo feminino em todas as idades.

“Por se tratar de uma doença crônica, com períodos de melhora e piora durante a vida, é importante o seguimento com reumatologista, que vai orientar quando a medicação pode ser descontinuada, A interrupção do tratamento sem orientação médica pode ter conseqüências serias e irreversíveis, como piora importante ou reativação da doença e até mesmo risco de óbito”, alerta Dra. Lúcia. E a reumatologista completa: “ Com o diagnostico precoce e uma abordagem terapêutica mais eficiente, a evolução do paciente com LES melhorou muito. Hoje um adolescente com lúpus tratado adequadamente tem uma imensa possibilidade de se tornar um adulto  portador de uma doença crônica controlada e deve ser estimulado a estudar, ter sua futura profissão e construir sua família.”

Fonte: Revista Jeito de Viver

Uma publicação ADJ